PARA A AUMENTAR


O TEMPO E O VENTO
…
…
O tempo e o vento
São iguais em velocidade,
Mas a memória,
Com muito tento
Faz a fotografia, detém a história
E a tipografia dá–nos a ideia, o testemunho,
Dos estudantes da Guarda,
Das suas tropelias, das suas festas,
Em aferrei ás,
De colheres em punho
As fitas ao vento
No baile de finalistas, de capa e batina,
No 1º. de Dezembro,
Em dias de rotina
E, se bem me lembro,
Na estrada à boleia;
Havia a praxe, os mariolas,
Havia as aulas
E também os cartolas;
E aqueles malandros,
Amigos do livro
E da brincadeira,
Bons no estudo
E também na asneira;
Muito bons rapazes,
Mui foliões,
Ninguém vai esquecer
O Cunha Simões,
Nem o Sá Pessoa
Que faz muita falta,
Pois o seu quarto
Era o da malta;
Nem o Chartier, aquele folgazão,
Bom camarada, mui brincalhão!
Nem o Escudeiro,
Aquele atirador,
De grande estima,
Da arma favorita,
O herói da esgrima,
Ajudado p'lo Rita,
Aquele catita,
Tabém Quadrado,
Parada e resposta,
Parada e resposta,
Com sua graça,
Atirando de lado,
Ganha a taça
Lá na capital
Etc. e tal...!
e todos conheciam a Eneida
E também o Martins d'Almeida,
"Castigador" emérito,
E também aluno de mérito
E era o Leite,
Mano a mano
A jogar matraquilhos
Com o Herculano;
E havia as repúblicas:
Das vassourinhas,
A do néctar com filtros de eros;
As donzelinhas
Cheias de amor, dádivas celestiais,
Fazendo olhinhos
Ternos, divinais,
Aos estudantes, aos rapazinhos
E o Luciano, o grande cantor,
A fazer serenata,
A partir corações
C’oa malta cognata,
E também o Bidarra
A cantar d’amores
Ao som da guitarra,
E naquela cidade nada faltava,
Nem vento nem frio,
Pois até nevava
E, é claro, a mocidade com suas “coortes”,
Acampando em suas tendas,
Divisando os palheiros
Com cada chefão
Tais como o Calheiros,
Ou o Aragão;
E havia os cantares à volta da chama,
Amenos serões
Conduzidos p’la fama
Do Cunha Simões.
E lá no quartel, havia o Marcolino,
Aquela delícia,
Lá na milícia
A prometer,
Por bom comportamento,
Um par de polainitos
Aos seus lusitos;
E havia a mamã
E a Académica, que se acaso perdia
Lá na Covilhã,
Dava bojarda
Pois era o demónio
Com os da Guarda,
Um pandemónio
A defender a “Briosa,”
Chartier e Casimiro à frente, mocas em riste
Que ninguém resiste;
E sabem do Rau, aquele gigante,
Que lá na milícia,
Corria os cem metros
Ali num instante;
E os trepadores,
“Mas o que é isto?
Subida à corda de uma braçada?”
“São os da Guarda c’o seu Manisco,
Não há problema, não admira nada.”
E havia o ping-pong com seus campeões
Como o Alçada
A deliciar a malta
Que lhe agradecia com ovações!
E do Carapito, era o Foitinho
Que p’ra tirar o canudo
Palmilhava o caminho
Com vento, frios, neves e tudo.
E o Ramalho, e o Cavalheiro,
Brilhantes como o sol
A jogar futebol.
E que Deus me ajude,
Recitei poesia
No Rádio Altitude,
E o Mário cantou
E os outros quejandos
A delirar multidões
Como o Simões.
E era o Côncio, a fugir à ginástica,
E o médico escolar,
Que não gostou nada,
Como era o pai
Deu–lhe uma estalada;
E era o Pala, o Fausto Proença,
Eram os Gamboas e o Samuel,
Aquele moço loiro
Que impediu o Zé António de rapar o caloiro.
E era o Nabais
De Quadrazais
E também o Salvado
Lá na milícia
Que não salta o muro nem obrigado;
E o Matos, aquele atleta
Apaixonado, vejam lá,
P’la bicicleta.
E o Carvalho Gomes
E seu grupo unido: Morgado, Madeira, Rios,
O João de Távora de pergaminhos e brios;
E outros quejandos
Como os de Celorico,
Olha o Vaz, olha o Victor,
O Ravasco, O Rebordão, O Amílcar,
O Ribas, o Madalena,
Mas que grande escol,
O Vítor Rocha do Voleibol,
O Direito de Manteigas
E o Melo,
E havia os de Pinhel,
O Cunha, os Adéritos, o Caldas Caetano,
O Artur e o Manel;
Era o Jorge, o Portugal
E outros tantos et cetera e tal,
Da terra do demo, do vento norte
E tantos outros
Em quem poder não teve a morte.


A GREVE DA AULA
É em Maio, no mês das flores,
S’tá a natureza em festa,
Engrinaldada
É um convite ao passeio,
Ao absorver dos odores
P’los campos, p’los relvados,
Um convite de amores,
Ao falar das pequenas
E de coisas triviais.
“Meus Senhores”
Diz alguém a plenos pulmões
As suas razões:
“A aula que se lixe”,
Diz o Simões.
E como ele é líder
Lá vai a rapaziada
Toda entusiasmada
Que em vez de ir à aula
A aturar a chatice
Daquela famigerada, complicada
Que na prática
É a Matemática,
Se mete à estrada para cumprir denodada
As deliberações da mesa.
O reitor, era ele o professor,
Estranhou a míngua
De alunos seus:
Cinquenta por cento,
Mais um ou dois
A ganhar por pouco as eleições.
Mas, como estava o Patrício
O nosso homem pensou:
“Eu sei quem foi que os aliciou
Mas se este não alinhou
Ele virá à razão”.
E a coisa passou
Fazendo de contas que foi a gripe
Epidémica, danada, a brincar c’oa rapaziada
Assim como quem já a espera
Em plena Primavera.



MATRAQUILHOS
Cá o rico…
Era na Guarda
Quando se vai para Celorico:
A barraca tinha meninas,
Tiro ao alvo
D’espingarda
E também matraquilhos!
Eu era católico,
Mas jogar
Com o Renato mano a mano,
A par e par com o Herculano
O grande Leite e algum do Souto
E também o Valério do Couto,
Que diabo?
Não era pecado.
E as prostitutas?
Cuidado!!!
Pois cá o freguês
Pensa que vai morrer se lhe vão tirar os três!
Mas no fim,
Lá iam d’escopeta.
E quanto a mim?
– Ó filho, queres?
– Não, obrigado.
– Obrigado? S’tás a brincar?
Se vens tens de pagar.
E sem reparar que era uma brasa,
Contente lá ia pr’a casa,
Cantando, mui bem caladinho,
Uma área p’lo caminho.


RENATO vs PATÍCIO
...
O Renato, o camarada,
O amigo do seu amigo
Passeava comigo
Pela mata enramalhetada
E queria que eu provasse
Daquilo que ele mais gos tava,
Enfim, o que fez com que o homem jamais entrasse
No empíreo
Porque, muito atrevido, comeu do fruto proibido.
"Vamos por aqui", cicia ele,
"Anda por aqui um traço que dá o seu abraço
A quem ela gostar".
Qual abraço?
Uma "queca", é o que queria dizer e lá andámos
De Herodes para Pilatos.
Mas para o Patrício fazer o servicinho
Assim de repente
Sem s'tar preparado pelo director espiritual
Foi conflito mental:
"Será que desta vez vão mesmo voar os três?
"E começou a suar e a rezar o Padre nosso e a Avé Maria
E ao avistar de perfil
O jazigo de Augusto Gil
Até pensou que o ex governador
Poderia ser seu salvador!...
E a ninfa foi-se, sumiu,
Não sei se da oração, se da sorte, enfim,
Evaporou-se...
Mas não ficou por ali o "fait-divers".
Não sei se a professora percebeu
O nosso aprendiz de himeneu,
O que é certo é que chamou nosso amigo Renato
À pedra.
"Seu desatento nato",
Disse,
Aqui para a linha da frente
A fazer o exercício.
Vamos, rápido
Para não perturbar o Patrício".
E dali para diante
Amiguinhos sim, mas Marias,
Marias não
Que o nosso rapagão, púdico e diligente
Tem lá no pensamento
Que o desejo carnal
Por fora do casamento
É pecado mortal!...


O BAILE DO FUNDÃO
...
Nos braços ténues da fantasia
Percebi bem a alusão
Pois eu fui um dia
A certo baile no Fundão.
Tinha bom meio de transporte,
Nós, os ricos, é assim
É tudo de mão cheia;
Vestidos de preto e à boleia
Estrada fora, sempre andando
Olhando as raparigas de soslaio
Por vezes com certo enfado.
A educação na família
Insistia que era pecado.
Mas nos braços da fantasia
Quem é que a mim me diria
Que de certo modo apertaria,
Ao ser levado em triunfo,
Tanta rapariga, tanto calor.
O que se passou "in illo tempore"
Foi verdade, sim senhor!
E por causa desse baile
Esqueci o pecado e o pudor.
Comigo também viajava
O Teodoro, que por causa do baile,
Não foi ao sonoro.
Como não tínhamos um tostão
O Teodoro estendia a mão
E pedia a cada um
Uma oferta para entrar.
Enquanto isto acontecia
Eu pensava e rezava,
Ligava céu e terra.
E não é que veio o milagre!
Ao dar a volta ao edifício
Eis que de sem ver mais nada
Fiquei de repente sorridente
Pois que vejo na minha frente
Uma janela escancarada!
Esquecimento? Não.
O nosso amigo que gosta da brincadeira
Vai logo ao fundo da questão:
É milagre, pois então
Pois se eu rezei...
Uma vez lá dentro compreendi quem era o santo
Da minha devoção,
E que por causa de uma cretinice
Do professor Ferreirinha,
Resolveu mostrar as suas razões
Foi para o colégio do Fundão.
Quem é que me aparece?
Daquela maneira
A fazer milagres na Cova da Beira?
O maior camarada de sempre
O amigo que não esquece
Da Guarda o grande folião,
De serenatas, estudos e serões
Era? Quem havia de ser
O meu amigo Cunha Simões.

